quinta-feira, 1 de agosto de 2013

[Por vezes converso contigo na minha cabeça]


Por vezes converso contigo na minha cabeça
e lá dentro ajeito ansiosa o cabelo que sinto
puxo a cadeira pr'à frente    mesmo sem corpo
e chamo    para dizer    as primeiras palavras
«Entra. Senta-te. Aqui dentro estamos mais confortáveis
e para além disso ninguém nos pode ouvir.»
«Senta-te no canto que preferires. Podes dizer tudo sem medo.»
E logo a tua voz quebra um silêncio acautelado quando me dizes
«Sim. O que arde cura. As minhas palavras junto de ti ardem
e nunca consigo dizer nada sem esse brilho doloroso me anular»
Recomeço « Não leves a ferida à letra.Tudo o que não digo é teu.
É para um bem adiado que toma forma em lugares incríveis
poças de chuva    nuvens improváveis    sombras de portões antigos
ramagens agitadas   juncos na água emergentes   cortinas que voam»
« Esse real sou eu     se bem te entendo.»
« Esse real entra nos meus olhos como se tu apertasses o que sinto
inteiro contra o teu corpo»
« Afinal nunca serei real. Ser real é ser mais do que uma visão»
« Há fantasias que podem justificar uma vida»
« Para mim és uma não-verdade»
«Queres dizer que queres sair daqui da minha cabeça para outro lugar?
Um lugar autêntico onde se sinta a brisa roçar o rosto para um arrepio
sério. Um lugar menos fundo do que este. À superfície para os outros verem.
Só assim crês que há verdade neste amor. Através do espanto dos outros?»
«Quero viver contigo fora da tua cabeça»
«Mas se já vives dentro de mim»
«Mas não te vejo    não te toco    não te falo»
«Se isso te mata podes chorar durante o sono para eu sair dos teus olhos.»
«Não quero que saias. Quero que reentres com mais força nas minhas mãos.»
«O meu lugar perfeito é sempre interior»
«Desse modo não estou contigo. Amar é estar com»
« Estou nas palavras e nos silêncios. Estou sempre. Nunca quis ter outro corpo»
«Vou sair lá para fora. Assim não me bastas. Não quero um deus.»
«Eu também estou aí fora como uma coisa que se pode agarrar porém
tenciono recolher-me transitória como se fosse única e exclusivamente palavra.»
«Para mim isto é um princípio. Vou.»
«Dou-te este fim para que partas comigo sem que o saibas.»


Imagem: Elena Sariñena

3 comentários:

  1. Lindo! Lindo Lindo! Arrepiante! Como escreves bem, amiga!Tenho muito orgulho em ti. Fiquei sem palavras... Parabéns por este belíssimo poema!

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