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sexta-feira, 12 de julho de 2013

[Não estou ainda preparada para esse nome]

Não estou ainda preparada para esse nome
Sei que por constar no dicionário se torna
ainda mais difícil     que se farta de saltar
nas minhas mãos abertas   insolente
a mostrar que existe e não tem fim
Nome sôfrego que quando chega a noite
se intensifica e parece que cresce para tudo
mas que nunca se conclui imenso
como o prevejo
e fica sempre agulha no meu ouvido
mostrando-se capaz de tudo
como engolir a própria lua
mesmo sabendo que preciso dessa luz cheia
Não tenho conseguido dizê-lo descontraída
sem enjoo   sem arder a chaga rigorosa
que se prende com ele ao meu ventre
(É aí que sinto tudo como uma vida)
Mas também sei que perfeito
ainda que me custe
é empurrá-lo contra os meus dentes
pari-lo com toda a força como se o estrangulasse
talvez em jejum  talvez sem merda nas tripas
Vazia ainda     sem abrir os olhos
puxar sempre a direito   exercitar os músculos
como quem não quer mais nada  nem tem sono
e sobretudo nunca hesitando em mostrar-lhe esta dor
que tenho em vê-lo de frente desde que sou eu
Fazer como me ensinei para tudo o resto:
pegar o touro pelos cornos
expulsá-lo sem tremer num grito glorioso
para que saia pesado demais de dentro de mim:

morte
morte  morte
morte morte morte
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

[Cobre-te qualquer coisa interior]


Cobre-te qualquer coisa interior
a pele tão lisa  quente 
Despontas num sinal
da tua imensa tempestade
É fácil ver que és uma prega leve no mar plano  
que me interrompes numa maciez de chuva
Noto bem: vens imenso de dentro de ti
e isto sempre     continuamente
Tombas do fundo puro donde te concebeste
para cima dos meus olhos     grande
cheio de gestos sem falhas que derivam
do Princípio   e assustas assim feito dessa clareza
Porém gosto de te entrever nessa ameaça
nessa substância autêntica   acre  que ainda produz
pequenos sons como se estivesses a nascer
rumores que te vibram rente à barba
e apenas abaixo na boca húmida soltam uma fragrância
a terra molhada primordial que me chama sem palavras
O interior cobre-te a cabeça  o corpo    os movimentos
Aprofundas-te  num brilho desigual  que me fascina
e fazes com que trema ao observar-te quando
sólido e físico te abres em esplendorosa linguagem.

sábado, 1 de junho de 2013

[O rosto da minha avó foi hoje um sonho]

O rosto da minha avó foi hoje um sonho
Encontrei-o por acaso num buraco
do seu quintal    Ela sorria e parecia querer
que eu lhe afagasse os cabelos molhados
da chuva que invadiu aquele fosso
A brancura extrema  dos seus cabelos
encharcados talvez tenha sido o que mais
me impressionou naquela aparição
A sua língua estava inundada e tinha peixes
na boca Com tanta água não conseguiam vir
à tona as palavras Era uma velha sem língua
Não parecia a mesma sem poder falar  
emitir um som meigo   um beijo  mesmo o sorriso
era diferente   embaraçado da clausura
Os cabelos atrapalhavam Eram brancos demais
e matavam todas as outras possibilidades de cor  
E assim não havia ponte para chegar até mim 
nem som nenhum que nos unisse de facto
Apenas o sorriso  talvez um meio sorriso
Apenas a brancura extrema  A água
Pareceu-me ver os meus primórdios naquele buraco
mas mal eu me baixei para a ver de perto
e certificar-me de que era ela realmente
só deu tempo de apanhar um peixe que nadava rente
às gengivas e parecia uma sílaba saudosa ssssssibilante
e os seus olhos fecharam-se. A morte levou-a outra vez.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

[Por vezes os olhos das pessoas]

Por vezes os olhos das pessoas
transformam-se em olhos de bichos
e sinto-me envergonhada com o que fiz
pois atravessa-me uma piedade imensa
da sua aparente irracionalidade 
da sua ignorada fragilidade
de um olhar que não entende
Outras vezes esses olhos de bicho surgem
talvez porque me amedrontem
porque cospem frios sinais
lembram-me bestas a ferirem humanos
como bestas    de um só golpe sem aviso
Estes são aqueles olhares loucos
que penetram a carne sem esforço
E enfim entre o dó e o temor
procuro desencontrar-me desses olhos
todos    insistindo em ouvir muito
em vez de ver a dobrar  a triplicar ...
Procuro novos códigos
em que o humor ou o temor têm outros signos
só para me afastar definitivamente
destes maus pensamentos
que tenho desde miúda
que não me servem de muito
mas que confesso
me dão até algum prazer
Destas maldades mentais
nunca fui castigada
pois ninguém as vê
ninguém me acusa  sou única testemunha
e quando as quero pôr para trás das costas
e tornar-me uma adulta séria e formatada
repito a frase do meu
Padre António Vieira
fico longe das minhas parvoíces
A alma rende-se muito mais
pelos olhos do que pelos ouvidos
e recupero uma mente saudável
desculpando algumas das minhas perdições
descanso um pouco sobre a frase
volto a repeti-la     e vejo até uma aura
por cima dos meus cabelos
Mas o pior é que ao pensar
no que vou fazer para o jantar
me vêm logo de seguida
à cabeça os robalos que vou cozinhar
e que cá em casa os miúdos se guerreiam
pr'a comer os olhos dos peixes
assim que os vêem tesos na travessa
(não apenas dos robalos tesos mas
de qualquer peixe com olhos duros salientes
e pasmados da morte e da grelha)
E sem que eu queira ou sequer preveja
nasce novamente uma espécie de ameaça
das minhas ideias   da minha dignidade
Caem sobre mim mil imagens
de olhos devorados em disputa
que me pesam nas pestanas
grito daqui grito dali por mais um olho inteiro
e desisto de pensar nisto tudo
e no destino dos nossos olhos depois da morte
esqueço os bichos as pessoas e os seus ares
afasto a imagem das crianças em rude devoração
e intrigada comigo própria e com o meu poder
de inversão das coisas de contaminação fantástica
fecho os meus próprios olhos indignada
E privilegio outros sentidos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

[Procuro um roseiral]



Procuro um roseiral
que sombreie o desejo
                    de subir a tudo
Arrefeço
desço aos poucos
Calo    Caem as pálpebras
Tenho frio   guardo-me
fecho o peito à tempestade

Amanhã 
contarei muitas mais rosas
verei outras cores
       será outro o meu querer.


Imagem: Omar Galliani                

sábado, 27 de abril de 2013

[ Recordo: a minha alma cresce]


Recordo:  a minha alma cresce
quando estou dentro do texto
Fica enorme ali    sozinha entoa

Recordo ainda:
quando de mãos dadas
atravesso contigo a cidade
e aos poucos   um alarme
pois nessa noite  tudo é maior
      e essa mesma cidade se agiganta.



Imagem: Harry Wakefield, Dark Mystery

segunda-feira, 22 de abril de 2013

[Quero viver para sempre]

                                                                                                 
                                                                                                     Le dur désir de durer
                                                                                                     Paul Éluard

Quero viver para sempre
nem que para isso tenha de morrer
Sim   quero viver para sempre
mesmo na minha morte ser
porventura    a palavra   Fim 
e arranjar  a melhor maneira
de ser dita  nesse som nasal e breve
numa arrastada eternidade
Quero atravessar por aí a fronteira
reanimar-me mal me digas alto
e aí porei o pé na prosódia mais curvada
subirei aos teus lábios sem medo do vazio
pois sei que daí serei lançada
num som convicto da minha vida
Sim   saltarei de escuridão em escuridão
até abrir a minha claridade em todo o poema
em todo esse trajecto aéreo     maravilhada
até cair na terra   e sujar os pés     deliciada
deixando entrar no rosto cheiros distantes
de olhos fechados (mesmo sem rosto
mesmo sem esses olhos    comidos pelos bichos)
sentir o odor das flores mais belas
(mesmo a meio desse horror da decomposição)
sentir o odor do mar tão grande
sentir o odor das fragas tão sós
(e apetece cantar com estes cheiros tão anafóricos)
sei: inspirarei momentânea toda essa simplicidade
para durar como uma folha antiga    perdida
gozando de ser coisa táctil
coisa audível    sempre presente
na voz de quem me disser.

domingo, 21 de abril de 2013

[Vem numa espécie de angústia aos lábios]


A poesia é criar uma espécie de angústia para a resolver.
                                                  Paul Valéry

Vem numa espécie de angústia  aos lábios
a minha poesia      
Sabe-me a palavra dorida   que eu própria feri
para depois abrir os braços o mais que posso
e ir de encontro a essa opressão
que sustento    que recrio   que me instalo
Rasgo dois furos   um em cada mão aberta
e transporto a angústia para a minha cruz
alço-a no peito aberto a tudo
dou-lhe o corpo inteiro para que ela fique
se enraíze como planta carnívora
Gosto que me roa   que me coma até que doa
De vez em quando molho os lábios para trazer
a dor para dentro   mas devagar
Reconheço a minha poesia a doer por mim acima
cá dentro arde    sem voz ainda que a diga
ajudo a recolhê-la ensanguentada
a enovelar-se irreconhecível num novo caos
e precipito o seu transporte nas veias
cada vez mais quente    a borbulhar   e dói
porque cá dentro não há vento que a rebente
contra um fundo real    duro
O real é sempre mais duro do que o meu corpo
o meu corpo é mole    embala-a   liquidifica-a
Mas dentro do meu corpo    mais ao fundo
há sonhos constantes que se cruzam com ela
com a minha poesia em sangue
e como se fossem pedras  esses sonhos
atingem-lhe o muro de angústia com força
acabando por desfazê-la nesse alvo
numa ou noutra palavra
que expulso quando já não suporto mais
refazê-la assim no sangue
como se não existisse fora de mim.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

[No quarto tenho coisas que por vezes voam]

Tudo se confunde já. Coisas e quimeras.
Samuel Beckett, Mal visto, mal dito


No quarto  tenho coisas que por vezes voam
não apenas quando fecho os olhos       N  ã  o
A frieza da caixa de jóias a disparar-se em ouros
capta minha atenção    e lá dentro    olhos de todas 
as cores     histórias que li   tudo pisca palavras acesas
num único lume      E eu quero ser séria     e não posso
Recolho essas sombras     essas mesmas sombras lidas
que ansiava ter nas mãos    dou-lhes tempo para se tornarem
fechadas   duras   tensas antes de as sublimar num voo
Antes de tudo deito-as sobre o candeeiro de pano branco
e nelas crio outras sombras mais esguias mais achatadas
(Beckett, não quero morrer ajoelhada nesse escuro
que as sombras têm por hábito estender no chão)
(Nem sou como a Velha que quer morrer   que se afasta
da fala para parecer que está definitivamenter morta)       
Agito então essas outras coisas que tirei de mim
Agora quadradas  fervem por se lançar no infinito
e uma luz   dentro de mim   avisa-me para um ouvido branco
de pano   que parece o candeeiro da mesinha de cabeceira
Um ouvido grande que começa a consubstanciar-se no ar
por cima da minha cabeça e fica à espera    suspenso
à espera que minha voz o penetre e fique lá para sempre
iluminada  visível   E eu cumpro   abro os olhos e vejo:
tudo voa e não há sossego no quarto que também roda
à volta da cabeceira da cama a confundir-me com  quimeras
que me forçam a abrir a boca  a lançar a língua como um jacto
de sangue sobre os livros  as telas  que estão nas prateleiras
nas paredes como deuses transformados nessas coisas supremas
para enfeitarem a minha solidão   solidão boa frente à janela
Arredo as cortinas como a tua Velha mas pergunto
O mundo que me quer? Mando estas coisas que me acontecem
dizer-lhe que estou ocupada e dentro do ouvido grande
que fico muito tempo lá dentro    frente aos tapetes longos
onde estão as folhas escritas por minha mão direita   sonâmbula
irrepreensível nos sonhos que ajeita no papel
mesmo naqueles mal vistos mal ditos
E só sossego, Beckett, quando tudo se confunde já. 
Coisas e quimeras.

sábado, 6 de abril de 2013

[Um novo deus é uma só palavra que se esconde]

Um novo deus é uma só palavra
Fernando Pessoa
 
 
Um novo deus é uma só palavra que se esconde
em muitos sítios de minha casa   no mundo em frente
e sei que é por pouco que ela  divina  não me chama
quando a ouço a desfazer-se já no ar 
Espero sempre por esse pouco    por essa voz clara
e    para mim    essa palavra pode resolver tudo
seja verbo nome adjetivo
preposição advérbio ou conjunção
pode mesmo resolver tudo um novo deus
o medo a fome a tristeza o amor
o frio a doença a morte
Sabendo que um novo deus é mais do que uma palavra
era capaz de partir tudo cá em casa 
de insultar  de bater portas 
e até de me matar
Esfolo-me diariamente para que um novo deus se diga se escreva
para poder atirá-lo sobre mim    contra o meu rosto   meu coração
Tudo faço por essa palavra misteriosa que quero trazer na boca
como uma devoção
como uma revolução
feita através da língua que eu tanto amo
E desconfio  qualquer palavra poderá ser um novo deus para mim.


sábado, 30 de março de 2013

Memento

 
                                                                                    Beatus Omnes...
                                                                                 Livro dos Salmos
                                                                                                
Sobre um ramo florido e odorífero
de uma árvore brilhante               discreta
Joaquina gerou Adelaide, Adelaide gerou
Aricina e seus irmãos,
Luís gerou Pedro Isaque Sara e Jonas
António gerou Anita
Aricina gerou Paula Vítor e Patca

Refrão (com a ajuda dos pássaros residentes):
Paula gerou Hugo e Ana
Vítor gerou Dane Maria Mafalda e Isaque
Patca gerou Tiago e Afonso.

Num ramo contíguo e frutificado
desse mesmo bosque à beira-mar
Rosa do Vento gerou Leopoldina,
Leopoldina gerou Jaime e seus irmãos
Adriana gerou Carlos e Jorge
Laura gerou Maria João Cila e Lala
Carlos gerou José
Jaime gerou Paula Vítor e Patca

Refrão (afastando a folhagem antiga):
Paula gerou Hugo e Ana
Vítor gerou Dane Maria Mafalda e Isaque
Patca gerou Tiago e Afonso.


Imagem: A Árvore de Jessé, iIuminura do Saltério de Ingeburge da Dinamarca, c. 1210

segunda-feira, 25 de março de 2013

[ Pessoas ]


I - HÁ PESSOAS PARA QUEM O PRAZER OFENDE


Há pessoas para quem o prazer ofende
para quem a poesia é um susto
e o corpo tremenda morte.
O poema é um buraco uma lomba
a abarrotar de sentidos de equívocos
de acepções como portas giratórias
que pode subjugá-las à tontura
no meio da rua                ou no meio da cama
e a nudez um assalto à mão armada
uma gruta interdita com paus à entrada.
Há pessoas que têm medo de escutar
pousando o ouvido no ventre         nos versos
e por isso afastam ardores que não entendem
Há pessoas de quem não gosto.


II - É PRECISO TER CUIDADO COM AS PESSOAS


E é preciso ter cuidado com as pessoas
que negam desintegrar-se
que recusam poetizar-se
até que façam análises ao sangue ao siso
e procurem uma cura urgente para
esse nato aplicar-se ao desprazer
esse oferecer-se à censura do possuído
numa moralidade cancerígena
altamente contagiante      altamente previsível
Pessoas para quem o corpo pode ser mote
mas nunca glosa em tempestade ou desvario
Há quem desconfie das pessoas que gostam
de dizer alto palavras esvaziadas de razão
sem saber que lá se encontra a própria cura.


III - HÁ PESSOAS QUE TEIMAM


Há pessoas que teimam
em fechar os olhos à tortura
de não saber o sabor
de retumbantes ausências
de promissoras inconsciências
e denegam o facto do corpo se estender
como um tapete volante para escapar
para se dobrar como uma letra intocável
Não querem ver o corpo encapelar-se
e ser onda             ser poema
dito em voz maravilhada até rebentar
a cabeça  delirante           soltar gemidos
estilhaçar seus membros
em vidros de uma lucidez cortante.


IV - AVISAREI AVIDAMENTE ESSAS PESSOAS


Avisarei avidamente essas pessoas que
o Poema é imagem    
consecutiva              regressiva
constante equidistante             inalcançável
Avisarei que quem tem sentido de posse
exacerbado jamais o poderá guardar em todas
as linhas em todos os pontos e movimentos.
o Poema não cabe nas mãos da avareza
será impossível levá-lo com justiça
ou lealdade para casa
impossível fechá-lo em montras      gavetas
Vou a correr avisar essas pessoas
que a poesia instintivamente voa
e que o corpo se vem                   se ausenta
nessa mesma espiral de matéria
que dessas viagens estranhas ambos
regressam como se fossem outros.
Direi às pessoas que quem os quer
reencontrar num ínfimo repouso
deve invadi-los em premeditada loucura
pois só assim os rastos dos gritos são lagos
onde se pasmam belezas verdades segredos
monstruosidades revelações galanteios memórias
Avisarei já esgotada que só assim a poesia se instala
como um espasmo garantido
primeiro dentro das pálpebras
depois do corpo todo
E que só dessa forma corporizada é música
presa difícil  sombreada  enigmática
tornada vago clarão de gozo em qualquer boca.


Imagem: Michał Łukasiewicz

sábado, 23 de março de 2013

[ Se eu quisesse enlouquecia no meio de mim ]


Se eu quisesse enlouquecia
Herberto Hélder


Se eu quisesse enlouquecia no meio de mim
partiria cedo para esse lugar alto
mal ouvisse os gestos dos outros
no centro da sala a dar entrada às horas
com vénias e muitos fumos
a instalar como um tesouro o tiquetaque
nos armários tapetes e afazeres constantes.
Cedo partiria sem ninguém dar conta
e sei - se eu quisesse enlouquecia no meio de mim.
Bastava ver a apontar para fora das coisas
que fazem da minha vida um sorvedouro
e numa incisão cruel à flor do peito
 penetraria até à costela mais alta sem que
ninguém me visse. Aí mesmo deitada no osso
anularia qualquer adorno e instruída por mim
veria apenas:
praia deserta ou impreterível montanha
sorriso ou choro.
E daí diria crente o contrário das coisas.
Elas seriam as mesmas com esse outro som.
Depois rir-me-ia de tudo o resto
gargalhava
sempre com outras ou as mesmas palavras.


Imagem: Michał Łukasiewicz

sexta-feira, 15 de março de 2013

Cabeça de uma Jovem


Os olhos seguem independentes
do corpo e a paisagem recebe-os
estática num alarmante cheiro a terra
molhada que parece emitir um vago
amor ao incompreensível e penetrante
desejo de ser esse longe vacilante.
Os cabelos longos dirigem-se
à distância
atiram-se nessa voraz direcção
e finalmente desprendem-se da cabeça
ligeiramente levantada
ofegante por intervalos de sol.
A boca é mordida ferozmente
pelos seus dentes lisos
e retrai-se para junto da própria
língua que a beija e devora para
um instante eterno.
O nariz suga os vapores
do último húmus e decompõe-no
em tons de verde adocicado.
Anularam-se os restantes traços
os restantes ossos
e os sulcos dessa pele tenra
já não existem junto de tanta solidão.
Nenhum espelho reflecte a sua imagem
Nenhum poema pode escrever
a cabeça de uma jovem
que se perde no prazer
de tudo o que vê e não possui.


Imagem: Diego Velázquez, Cabeça de uma Jovem

sábado, 9 de março de 2013

Poema que se lê de baixo para cima


e serei terrena e escrita por mais uns tempos.
descerei discreta às ruas da cidade
só quando estiver bem pesada e saciada
Vou subir mais e mais e
e pretendo guardar as melhores nos bolsos
para os céus temendo perdê-las na terra
palavras de poetas mortos que as lançaram
suspensas e aladas como cavalos doutro tempo
passar por outras palavras aterradoras
Hoje quero escrever para cima
quando não mostra a sua plumagem.
também engrandece o seu canto
um pássaro escondido
como poeta obscura e alienada -
Quero escrever para cima
do cimo dessa árvore alta imaginada).
com toda a força a quem passa
(palavra lançada como pedra
ou uma palavrada
com um assobio agudo
quando eles passassem
surpreendesse os amigos
entre as suas ramadas
e me escondesse
uma árvore
como se estivesse a subir
para cima
Hoje quero escrever

Foi a dormir que vivi o pior


Foi a dormir que vivi o pior
e me descobri em tantas hipóteses de morte 
que apenas pude salvar-me numa espécie de grito
que inventei contra o meu estrangulamento 
Grito que levantei contra a noite-dentro
para me desviar desse sono  insuportável
E ao recusá-lo tornou-se claro que me infligi
como se fosse outras que nunca vi de dia
uma bílis mais amarga  mais verde
Verti-a perigosamente sobre a razão
como uma perturbação saturniana
- sobre os meus medos de mulher viva e amante
que deixam o meu corpo poético para trás -
Dobrei-me ao entendimento do que é ser mortal
e não acordei entre nenhuma noite nenhuma madrugada
Apenas me deixei implodir de veias malignas 
e a partir das quatro da manhã em ponto
(sou rigorosa mesmo adormecida)
o sangue alastrou-se em caminhos tortuosos 
e doenças pantanosas soterraram a única
cura que para mim preparei há muito
a palavra
por isso me forço a não dormir e de imediato 
digo ou escrevo para me salvar da noite.


Imagem: Leonor Fini

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Narcolepsia

Digo praia quando as coisas são belas
Indomáveis avassaladoramente cruas
posso chamar praia à tua voz
ao teu cabelo branco e negro
como uma antítese
ao livro que prendo nas mãos
mal abro os olhos com a primeira luz
a um dia de chuva ao teu corpo
em cima do meu por baixo do meu
não interessa onde digo praia cheia
de vogais que me abrem demais a boca
para esse grito tão livre
e mesmo assim sigo o real dos meus pés
dentro das botas de cabedal de cano alto
número 37 assentes no chão a comprovar
a vida que passa quase sem se ouvir numa espécie
de rumor de água (perco todos os guarda-chuvas
que me protegem dos aguaceiros das ruas
de verdade) Digo água e devia estremecer de frio
ou de sede mas chega é um desejo de vinho quase
negro a tingir-me os lábios de amarguras
que aspiram à tua doçura muda e vaga
e quando digo – sou – caio copulativa sobre
essa curva e contracurva verbal
como numa névoa que me intercala
me desfaz o imediato o em frente ao nariz
e me leva para longe da paisagem que me ronda
- quem me puxa para debaixo do sol de todos?
Digo céu e vejo anjos a caminhar na terra
e crianças como a que ainda sou
(de carne e osso) a voar no céu
céu pode ser o inacreditável como o nosso fulgor
quando estamos juntos céu é o teu abraço
juro que vejo tudo isto ccom as palavras do poema
mas mesmo assim devido à tua desconfiança
- será minha também?
coloco uma mão depressa sobre os lábios o rosto
(para sentir que existo mesmo por fora)
e tentando vir à tona do real chamo - é ou parece-me?
atiro isto para ver se acordo ou tu me chamas para esse
manto das verdades das racionalidades
e ao interrogar o sonho posso quem sabe embater no real
como num rochedo sem me ferir em demasia
posso chamar rochedo a tudo o que não gosto ao irreparável
a tudo o que é rugoso
ao medo ao teu adeus à distância da minha cama à tua
e aí no alto digo noite para qualquer luz me vir agarrar a mão
digo uma coisa para acontecer outra e acontece.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Trago a minha avó morta na língua

À minha irmã Ana
Trago a minha avó morta na língua
- Não tive ainda coragem para a engolir
talvez por aquela última imagem
em plena praia deserta ou seria um cemitério?
em que a invadiu uma luz primordial
que lhe acendeu a testa de uma cor falsa
temerosa como o fim da tarde mais belo
Essa mesma luz falsa cobriu-lhe  os cabelos raros

da cor da morte longa e indiferente
amarela cor amarela excessivamente amarela
e quase cega dessa abundância disfarçada de nada
deixei-me impressionar pelos seus lábios murchos
pintados que adiavam a ausência sequencial
daquele rosto vazio
foi minha irmã quem os pintou com
o seu batom novo e vivo

- a avó sempre gostou da maquilhagem
mesmo depois de morta absorveu a cor
com a mesma pressa e vaidade dos vivos
Vi-a nitidamente morta e ela era a síntese de
uma colina florida
flores de odores fortes cobriam-lhe os pés
recolhidos como raízes numa floreira
e ela parecia uma encurvada flor a crescer velha

a crescer vorazmente em direção ao não ser
ficou muito alta mesmo muito alta por quase
já não existir
O vestido azul que lhe vestiram também era
florido e bonito demais para aquele
momento sombrio de destituição
brilhava excessivamente dentro do caixão
e era como se a visse ir deitada a uma festa
mas nem ali naquela fresta nem na minha língua
ensopada de saliva como estava, a avó poderia
levantar a cabeça e dançar ondulando o seu corpo

Para além de tudo isto ouvi chorar chorar chorar
e entendi a consistência da reza a partir do choro

Agora afasto essas visões mudas da cabeça
para cobrir a morte com palavras
e a avó mexe-se um pouco curva-se para o meu céu
da boca - eu sinto-a impertinente pois
leio-lhe a voz mesmo depois de morta -
a voz dos meus mortos nunca se apaga
fica apenas mais achatada e desfaz-se líquida
nos meus ouvidos para que mais ninguém a ouça

E assim correspondo ao seu pedido perdido
prenso-a um pouco a medo
contra os meus dentes que ajudam a exilar gravemente
aquela fenda em que ela se tornou
dentro da minha boca - antegrito de qualquer fim -
e porque a morte também é palavra
profiro-a neste poema para que a possa erguer alta e
interminavelmente grandiosa lhe devolver a vida.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Às mãos


Mãos que não dispenso da memória
que como bichos aguardam a chamada
a minha voz antiga a procurá-las
Por vezes meto a cabeça nostálgica
entre as mãos para rever essas tantas
aproximações sinais que nunca esqueço
marcos que me esperam sempre
e me engrandecem como
ecos de Sophia - mãos interrompidas
Mãos que colheram para sempre
intensos momentos de amor momentos
de escrita desse amor partido em muitos
e lembro imensamente
as minhas mãos cheias de orquídeas
brancas como dedos a chamar esse outro corpo
para junto do meu corpo a um canto retraído
Lembro tantas imagens
eu a cantar eu a clamar os leopardos
de Herberto Helder para me lamberem
as mãos giratórias
A tua língua as tuas mãos violentas velozes
como se as visse num poema maior
a entrarem nas minhas a lutarem possuídas
a avançarem contra os ombros os seios as ancas
em calculadas e sucessivas despedidas
Lembro-as a alastrarem um fogo voraz como
um texto incalculável que não se apaga entre
os cabelos que segurava como chamas
Mãos crucificadas as minhas
quando tu as seguravas abertas a brilharem dois
sóis por dentro da cama por baixo dos lençóis brancos
e eu a dizer mesmo calada que as minhas mãos
não faziam sentido sem o teu rosto a tua pele
a sombreá-las
E as tuas mãos já foram mãos demais para
uma vida
Trémulas fizeram-me nascer gritando a partir delas
Sólidas ainda hoje me desviam entre gestos fortes
das trevas das trivialidades que crescem nos meus
dias como ervas
Enfim ergues num fôlego com tuas mãos
as minhas mãos para que eu siga a minha prova


Fotografia: Peter Lindbergh

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Desfigurações


Quando leio até tarde perco-me sempre
a partir de determinado instante. É um segundo
visível, como se de matéria se fizesse pois sinto-o
tocar-me no ombro.Sim, nunca o confessei a ninguém,
seria desentendida, obviamente, pois o tempo nunca
é coisa a ver. O certo é que a partir do instante não vejo
mais texto. E tudo o que está fora do livro, da cama,
se apaga ou alterna. Apercebo-me apenas de que seguro
o livro nas mãos sobre o púbis encoberto, ao mesmo tempo
que se levantam sobre mim, sobre minha cama, notáveis
desfigurações. As letras do livro ficam outras, umas vezes
ameaças, outras, canções.

Leio sílaba a sílaba outras histórias vindas do meu estômago,
histórias que se cruzam e desaparecem empurrando novas letras,
globulosas perdições das minhas noites. E é apenas quando
o instante me toca neste ombro como esfaimado pedinte que em mim
tudo cega para o que existe em volta e vejo apenas a aura doida
daquilo que amo em desestabilizações opacas como se o real se
desmontasse noutros e não fosse eu que os visse
descrente e desacreditada.


Imagem: João Silva