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sábado, 25 de janeiro de 2014

[Estas palavras querem falar com outras palavras]

Estas palavras querem falar com outras palavras
nem que as outras palavras não se abram em flor.
Estas palavras distinguem-me dos animais.
Mas estas palavras estão desesperadas por entrar
no rasto do teu pólen   por selvagens sugarem 
da tua boca as tuas palavras estagnadas.
Envolvo-as em água e    limpas    estas palavras dizem 

que é bom tê-las na boca só para ti. Pedem em silêncio
que as aceites  calado sobre o teu corpo armadura.
Estas palavras são abelhas e outras ameaças.
Mas mesmo assim quando puderes
com essas outras palavras que guardas na garganta
como ossos atravessados    responde-lhes
com a tua língua de terra e rio    acalma-as.
Podes também soterrar as minhas palavras se preferires.
Concede a força das pedras pesadas que rolam pelo monte
às tuas palavras engasgadas. Instala-lhes revolta.
Se as engolires  tornam-se irremediavelmente daninhas
maculam o teu caule duro de homem-flor.
Di-las como se ainda não estivessem amargas
como se ainda me pudesses querer toda ou mesmo nada.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

[Tantos títulos vizinhos em diálogo]

Tantos títulos vizinhos em diálogo
a lutarem na estante como se me assediassem
sem mais nem quê... Ou serei eu as vozes?
Ouço: « -Estás ao meu lado?» -
diz a Tabacaria a Sinais de Fogo -
E eu peço-lhes permissão para imaginar
um diálogo improvável. Diz o primeiro, engenheiro:
«-Nunca pensei poder incendiar-me assim 
só por te ter tão rente à capa...vem, grande Sena,
consumir-me todo» - ao que responde o professor
poeta: «- Nestes sinais entrego-te a minha vida. 
Também eu deito tudo para o chão
 como tu tens deitado a vida...»

E todos os títulos me parecem sábios, velhos
e boa companhia   mesmo cobertos de pó
Eu mesma o constato antes de ir para a cama
pois   como sempre    espreito-os nas prateleiras
do meu escritório a fim de me certificar
de que ainda há muitos por ler
de que ainda há muitos inexistentes no meu cérebro
e pacientes aguardam a minha escolha
a minha miopia crónica   os meus olhos
cada vez mais baços para as letras -
tenebrosa infelicidade para a leitora
tão acesa e faminta que fui fazendo de mim -

E independentemente de ser dramático
eufórico poético  risível  ou   sério
eu amo sobretudo qualquer título pousado
verticalmente na estante   esguio   discreto
que apenas se entrevê à luz do candeeiro fraco
E sei que só por pertencer a uma lombada
e essa lombada a um livro e esse livro a um autor
o ouço como se fosse o amigo mais fraterno
e pego-lhe nas mãos como se fosse eu a consolá-lo
Só compro títulos de amigos espirituais ou familiares
Pago-lhes para serem a outra voz com que falo
e pagaria o dobro nessa transacção   sem hesitar

Preciso que essas vozes fraternas me atormentem
Salsugem    O Medo    oh Al Berto meu querido insano
que as vozes me dobrem a alma a meio   me sacudam
oh Herberto d' A Cabeça nas mãos  Herberto das Servidões
Tu    mais que ninguém    serves-me a poesia a escaldar
ferves nas minhas veias com A faca não corta o fogo

Mas também quero vozes que me abracem com
O nome das coisas És tão funda  Sophia  como mar
E o meu anseio de que me preguem rasteiras
de que me façam cair e sangrar dos joelhos na leitura
de Uma cidade com muralha oh denso Daniel Faria
e  a seguir o desejo de que os Poemas de Deus e do Diabo 
me cuspam em cima   desolados    ou então   me beijem
para que de estômago contraído e   sem outro fim excessivo
adormeça a repetir Onde vais, drama-poesia?
adormeça a repetir os títulos das estantes brancas como LLansol.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

[O que é que eu digo? Estás aí?]


                                        «Ah, os dias felizes»
                                Samuel Beckett

O que é que eu digo? Estás aí?
Ouve agora pois depois desse grunhido
direi o que sei que me chega do poema:
tenho uma luz bipolar Ouves desse lado?
Ora atraio ao meu tecido como a aranha 
ora expulso qualquer língua que me quer
e até parece que tudo o que faço
com qualquer movimento largo 
com qualquer avessa recusa
não consegue derrubar nem excitar
a mais pequena formiga da terra que piso
Tudo se retrai   Tudo fica dentro de mim
até mesmo a própria formiga Todas as teias
Será a minha mão direita assim tão silenciosa
tão invisível que me torno inexistente 
que volvo até a mim tão desapetecida 
Que fará o outro mover-se ao meu encontro...
Mesmo assim é feliz este dia  Ah sim feliz
Permanecerei aqui  Deixarei o meu corpo
aqui repousar também Ninguém se importará 
Recorrerei apenas à memória dos meus outros
tantos dias felizes enquanto espero que tu chegues
pela noite reclames o jantar e que me sente à mesa
E enquanto isso vou recitando Ramos Rosa
Lembras-te daqueles versos?Não sei quê... 
Estamos de súbito libertos no diálogo 
que como um fogo alteia à nossa volta
 e vendo somos a chama e o seu sono   
e não sei que mais... Lembras-te ouviste?
Consegues delirar? Se respondesses seríamos
finalmente livres e vigiaríamos juntos o rio que passa
e a terra que se abre a cada dia a olhos vistos
para nos engolir sem recuarmos ao passado
Mas não faz mal  Continua no teu trabalho
Ganhar dinheiro muito dinheiro é um acto inadiável
Deixa-te estar nessa companhia a tilintar
que eu vou recordar todos os nossos dias felizes
não acredito que seremos os últimos seres humanos
perdidos por aqui ...

Imagem: Elena Sariñena


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

[Já todos nós matamos uma ou outra vez]

                                                                             À Teresa Pires
Já todos nós matamos uma ou outra vez
Já ficámos de mãos sujas    embaraçadas
sem sabermos como torná-las brancas de novo
Já todos ouvimos o disparo da nossa vítima
dessa que tanto amamos fechando as pálpebras
em pleno escuro entre nós e o precipício latente
e mesmo assim a insensatez de a desfazermos
uma e outra vez  estendendo o erro no tempo
sem pensarmos se acolheria mal essa morte
essa brutidão da morte que lhe cominámos
Sem querermos saber se nesse abrupto declive
que lhe preparámos sobreviveria da tristeza
apenas com palavras claras com interrogações
contra o nosso golpe indesculpável
E uma e outra vez ainda ouvimos os ecos
de uma aflição sem fim como se fossem doutros
- Por que me fazes isto se tanto te amo   amor?
- Isto é apenas o meu egoísmo quando me 
  faço acompanhar de mim.
- E são tantos os momentos em que não me vês em ti?
- Pertences-me sempre mesmo quando me parece que 
  escapas à paisagem  ao sorriso ao desejo
  do bicho que sou. Mesmo quando não estás
  são as tuas primeiras palavras 
  são as tuas últimas palavras
  aliás são as tuas palavras de permeio
  que leio nos rostos dos outros com quem estou.
  São elas que me fazem esquecer-te ali ou noutro tempo
  instaurando uma alegria suprema que me arrasa
  a memória como se um vento forte me levasse a cabeça.
- Não me faças ser sem ti. Nunca o quis ver.
E nessa derrocada quase lenta   quase imóvel
                                                          - Não vás sem mim
nessa ameaça da voz do ser que amamos
percebemos que o matamos um pouco
percebemos que nos matamos também um pouco
se não sonhamos juntos num só fogo
 mesmo quando em volta só vemos sinais de neve.


Imagem: Elena Sariñena


terça-feira, 19 de novembro de 2013

[O julgamento dos amantes passou-se na montanha]



O julgamento dos amantes passou-se na montanha
num esplendor de odor a terra húmida que inundou
os troncos de árvores como se os transbordasse
em fungos e algas: líquenes que vêem
Ouvi todas as testemunhas dizerem que era preciso
espalhar as sementes da correcção 
as entranhas do amor eterno no húmus aberto

E eu não creio que tenha assistido a nada de tão soberbo
como ao arremesso deste crime para os olhos de todos
mesmo dos animais que dobrados pareciam folhas com sede
Foi nesse verde que quase ceguei com as suas sombras altas 
como só a floresta consegue erguer    que vi reflectidos
os rostos dos amantes    belos    à espera
tensos como aloés que se sabem demasiado expostos

E o juíz decidido a condená-los pelos beijos à bruma
de alguns anos       pelos corpos 
que inconsequentes se desfizeram em lama
só para experimentarem uma paixão atordoada 
como se os outros não existissem para a reprovar

Em volta há gritos há pedras lançadas pelo ar
Há êxtases que incitam respostas que os amantes
não dão por vergonha
Há crianças com os mesmos rostos que os amantes
com fisgas presas nas mãos pequenas
prontas para lançarem pedradas
Há quem cuspa nos cabelos dos amantes 

e os diálogos não deixam nenhum insulto de parte
as pessoas sabem o que dizem e são conscienciosas
mesmo na montanha tão longe da cidade
eu própria os acusei de punhos fechados 
senti nojo da paixão que escondiam ainda
só as aves convocaram os seus cantares 
para afastarem o mal para outros vales
e os amantes como ali se arrependessem
estendiam o choro como taças de água 
para todas as agitações  todas as bocas
celebrando assim a sua maior desgraça.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

[Quando chegas e dizes que és amor pela manhã]


Quando chegas e dizes que és amor pela manhã    
e mo repetes ao ouvido convicto de que só eu o sei
observo-te entre todos os ângulos possíveis
na esperança de te ver erguer só o que sentes
só o que dizes seguro e alto nas  tuas  mãos abertas
Quando recuas farto de fogo para os meus olhos
Como se me ateasses com um só lume ou fizesses
sangue das flores que tens escondidas nos braços
e me dizes ao ouvido que és amor
eu acredito e toco-lhe sentindo a tua língua aguada
porque sei que és maior a cada segundo que passa
que me vais regressando cada vez mais
que me confirmas esse grande amor
E já de tarde sento-me e aguardo a tua voz perfeita
espero que a tua essência jorre e me penetre inteira
e enfim  soe essa música que me pões forte no peito
como se os teus passos em frente até aos meus
ou os teus braços longos   que me lanças ao pescoço
fossem um último risco    antes da minha morte
E já de noite quando repentinos outros chegam a casa
tu recolhes os sentidos como se não fosses o mesmo
amor imenso que passou por mim incendiando tudo
encolhes a voz que costuma dizer o que gosto de ser
e então és uma noite cerrada que se deita no meu ventre
uma escuridão pesada como uma qualquer coisa viva
tal qual um filho pequeno que não sei como amar mais.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

[Por quem te tomas quando me afrontas?]


Ninguém é mau. O que somos é ainda novos demais na terra.
Agustina Bessa-Luís

«-Por quem te tomas quando me afrontas?
Excessivamente convicto parece quereres levar-me da terra.
Não te admito que desfaças a minha ingenuidade com duas
ameaças de mar picado. Retira-te das minhas ilusões fortes
como se fosses daquele país do sul propiciamente indeferido»

«- Sou novo demais para te desobedecer porém o que tocas
com as tuas mãos desencontra-se com o tanto que me  dizes.
Não posso mesmo que queira seguir esse rumo descabido.
Ficarei porque este amor me chora pelo corpo afora e morro»

«- Cala-o se não és mau. Lembra-te que alguém te ama tanto
ou mais do que eu. Por que queres desembarcar aqui nesta
praia tão salgada em que nenhum dos teus aporta? Neste fim estreito?
Nem há assento para dois nestes caminhos de areia. Só para mim
só para as outras que também sou quando adormeço em sonho longo.»

«- Recusas o que também é meu. Quero esquecer a quem pertenço.
Prefiro pensar que erro porque não consigo entender o que a idade
me esconde atrás de todos os horizontes todas as paisagens belas.»

«- Vamos morrer primeiro e só depois partimos juntos já um pouco
mais sábios  já um pouco menos aterrados com as dores que esta ilha
nos faz sentir quando respiramos fundo. Vamos morrer primeiro e
com outros rostos renasceremos cheios da pureza dos areais molhados
tão remexidos por aquele grandioso mar que faz esquecer todos os prantos»


Imagem: Ben Hoper

[É isso mesmo senhor leitor]


«-É isso mesmo    senhor leitor
o prazer de ler o que nunca foi escrito
não é um prazer qualquer  Não não é
Concordo consigo ... completamente ...
Mas agora leia-me bem  Renda-se ao texto
e pelo menos uma vez tente deixar-se subjugar
Cative-se... isso...olhe mais para baixo por favor
Não se precipite  Não se entregue de uma vez só
Viu o nome da autora? Claro...já percebeu quem ela é
Pode então agora sobrevoar o texto como se andasse
seriamente em busca de si próprio Como? Onde estão
as entradas irreversíveis para estes versos? Como assim?
Obviamente que deve seguir-me no sentido esquerda-direita
E não...não tente entrar noutro poema sem primeiramente
ler este com uma voracidade ininterrupta Eu estou aqui mais do que
noutro lugar Sente-se ansioso excitado desorientado?  Não se precipite
por amor de deus  pelo amor que lhe tem ...a ela... ou pelo menos julga ter
Veja o espaço livre da margem direita  Sim...ora bem...esse mesmo...pare
Pouse mesmo aí o olhar Pode avistar-me e acalmar essa ansiedade indomada
Não queira encontrar nessa urdidura poética os olhos  a boca dela ...Não nos confunda
Pode realmente encontrá-los mas fora do texto  Peço-lhe: não me conceda esta autoria
O quê? Só consegue relaxar se der com as marcas do meu corpo?! Olhe que sou apenas
o sujeito poético desejado por ela ...uma sujeita sim...mas não deixo de ser abstracta
O meu corpo é muitas palavras juntas  cheio de sílabas excitadas por conhecê-lo
Sim...admito...assim...aqui nesta linha recta horizontal negra e intermitente Parece-me
que já estou a vê-lo a chegar os lábios à minha fronte Sim    f-r-o-n-t-e   minha fronte
Pode beijar-me aqui mesmo neste advérbio pequeno  a-q-u-i  sou eu  beije-me leia-me
Nunca pensou poder fazer isto do poema? Quantas vezes me beijou desde que lho
permiti senhor leitor? Não o faça...pare por favor Tenha a humildade de o fazer de novo
apenas amanhã quando me procurar outra vez para me reler e tiver a certeza de que
não sou L.V.  Não não sou Já lho tinha dito no verso nove tratando-a na terceira pessoa
E eu não quero compromisso sério dentro do texto Sim levianamente assumo que
quero ser lida por outros leitores percebe? Superficiais  Atentos  Profundos  Precipitados
Quero que percebam à sua maneira quem sou afinal  como domino a minha artificialidade
Espere...Estou sim? Ainda me vê na folha que tem consigo aí ao telefone? Ainda me lê?
Eu sinto-o sim...continuo morta de prazer mas por agora dobre-me...meta-me no bolso
Não desespere...guarde-me bem...saia pelo canto direito em branco...volte amanhã ...»

Imagem: Antonio Lopez, El Telefono

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

[Da tua voz fiz uma vertigem]

«- Da tua voz fiz uma vertigem
  como nunca imaginei haver.
  Dobei-a como a uma lã
  que parecia mesmo não querer
  desprender-se do novelo de que é enigma.
  Assustou-me uma garganta fechada
  sem abertura para o escuro que há em ti.
  Doeu-me puxar-te pelo fio do coração
  que reconheço de qualquer longe. Foi longo
  o caminho que estendi até aos teus rumores.
  Pé ante pé equilibrei-me nas tuas entoações.
  E só no fim do meu esforço   lenta   me despi
  e a tua voz veio à tona  súbita  num redemoinho
  mas com um sangue tão retraído
  que me transtornei para essa noite para a noite
  seguinte para todas as noites. Perdi-me então
  num silêncio de mera constatação da tua perda
  que não passou de outra vertigem que refiz de ti
  para lá da música que noutro tempo ousaste ser
  no meu corpo tão novo tão tenso contra o teu.»
«- ___________________________________.»
«- Hoje és o silêncio triste que há no fundo
   das coisas  às vezes no avesso interdito dos lugares
   ou nas sombras que passam e se calam sem razões.»

Imagem: Rocco Carnevale, L' Escape

sábado, 28 de setembro de 2013

[O poema dos pássaros que ontem à noite escrevi]


«- O poema dos pássaros que ontem à noite escrevi
   não é poema não é nada. É uma hipocrisia pegada.
   Um absurdo à minha frente. O que me dizes a isto?»
(Sentada na cadeira para pensar melhor com o corpo todo)
«- Não dei conta de nada. Não dei conta de nada.»
«- De que vale ser a poeta deste poema nesta vida
  se fora do texto ter pássaros é insuportável para mim?
«- Acalmas a tua repulsa. Dás-lhe a gaiola da estrofe
   e a beleza da palavra. É da palavra que gostas.»
«- Sinto aversão ao meu poema como a personagem
   d' A Pomba  à pomba que não se vai dali.»
«- É da palavra que gostas. Só os pássaros esvoaçam
   com delicadeza como os sons vocálicos que amas.»
«- Que grande hipocrisia é afinal a poesia nas minhas
   mãos... Queria amar de verdade o que digo
   para sempre.»
«- Mas trazes pássaros na memória muito comodamente.
  Eles são imagens fortes mesmo que te arrepiem de medo
  ao passar rente à cabeça. Dentro de ti são felizes.»
«- Não dês desculpas. Tu e eu    sabes bem
   somos eu e eu. Um diálogo de mim para mim
   ou estarei louca?»
«- Outra inverdade. Escrever é uma loucura absoluta.
   Podes sempre mudar a pessoa gramatical. Retirar
   o travessão e fazer um monólogo  respeitado.»
«- Convincente queres tu dizer? Como fiz com os pássaros.»
«- Convencer sem crer é coisa difícil de fazer com palavras.
   Esse é o teu amor maior. Pior é fazê-lo com o olhar.»

(Agora de mim para mim    recorrendo à didascália
utensílio dramático  para não levantar dúvida nenhuma)
«- Só sei que quanto mais escrevo menos digo as verdades.
   As minhas verdades. Importa-me é agarrar as palavras
   como pesos e fazer com elas uma espécie de halterofilismo
   que faça de mim mais forte na expressão. Mais forte a cada dia.
   Elevo-as e baixo-as com esforço. Suo. E quando sinto o corpo
   enrijecido para levar com a poesia toda na cara como um murro
   ponho o ponto final e dou por findo o meu poema. Apago a luz
   até sentir que sou real porque não vejo no escuro e que
   aquilo que faço é físiológico e tremendamente confuso.»

Imagem: E. O. Hoppe

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

[Foi quando arrisquei entrar na casa do poeta]

                                                                   À Paula Vieira,
                                                                                                                         lembrando-lhe um conto de Muriel Spark

Foi quando arrisquei entrar na casa do poeta
que tinha pássaros a guardar-lhe a porta
entreaberta
para qualquer curioso poder entrar como eu
espantado de tantas plumagens sustidas no ar
como se fossem uma festa
um gozo adiantado
que movimentei os lábios para que os meus sons
parecessem provir dos trajectos curtos vorazes
daquelas avezinhas maravilhosamente brancas
Acariciei-as hesitante
Quis ser uma amiga
e empurrei a porta crente que veria etereamente
quando o que vi foi à pouca luz
um homem nu
coberto das palavras que escrevera toda a vida
desde menino na sua vila     aos pés da sua mãe
à quase-morte na cidade onde escolhera viver
Apercebi-o deitado num cadeirão baloiçante
como se aguardasse uma música
ou a chegada ritmada de alguém
que lhe falasse com outras  palavras
e aproximando-me disse-lhe estranhamente:
«- Folhas de outono com  palavras quentes?»
«- Quem és tu?»
«- Uma amiga do que diz.»
«- Isto que vês é a minha carne. O que disse
    hoje é isto velho. Pronto a ser recolhido pela
     terra.Se és sol  senta-te. Podes fazer muito
    da minha morte.»
«- Rezar por si    dizendo os seus poemas?»
«- Não rezes. Diz apenas as palavras que aqui vês
   sobre um corpo que já não as consegue revelar.»
«- Esses poemas que o cobrem parecem flores.»
«- Estão quase secos, querida. Recolhe-os.
   Dá-lhes de beber. Leva-os contigo para as ruas.»
«- Assim será. Nunca os deixarei ter sede das bocas.»
«- Que sejam um amparo para os outros. Fá-los
   voar como os meus pássaros. Liberta-os. Leva-os
   nas mãos para que vivam do desejo dos outros.»
«- Desejo dizê-los para voar dentro de mim. E nessa
   partida chamarei todos aqueles que disseram por si.
   o meu poeta.»

Imagem: Elena Sariñena, Forever Young

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

[Decidi fechar o corpo a quem passava]


Decidi fechar o corpo a quem passava
Não posso mais conter-me por entrar em mim
Segui para dentro como se me fosse embora
Gosto de me invadir   de fingir que não sou
o que sou presa à minha língua
Parti para outro lugar que ninguém sabe
onde ensaio um conflito entre o que sou
e o meu corpo cansado de te amar
Dobrei o pescoço para chegar aos seios
e foi fácil seguir de perto este guião que fiz
Experimentei uma voz suspensa  muito baixa
para me reconhecer aos poucos   e suspirei
apertei as pálpebras contra o desvaire
que tento avivar mesmo sem público
Gosto de mim desvairada
Gosto das minhas próprias cenas
Dispenso o público com os seus aplausos
ou a rudeza dos seus assobios
Até quando me enrolo no silêncio desta pele
como se fosse aqui uma mera intrusa
gosto de mim assim desvairada nesta solidão
Esta noite não quis que ninguém me chegasse
da rua ou de qualquer lugar fora do meu tacto
E que ninguém batesse neste corpo como à porta
Não lhe abriria nenhum conforto
Quero é falar como uma solitária que dá dó
Encontrar um ponto incógnito na minha cintura
a que chamarei de meu ignoto
e que ele me extenue de falsidades excitantes
que nunca sinto nos dias nem nas ruas onde vivo
Só falta agora um diálogo que lhe dará espessura:

« O amor é um castigo?» - dizes rouco
« É um castigo» - respondo sucinta
«Explica» - continuas lento e muito pouco
«O amor nunca me deixa estar só» - digo com o corpo
« E achas nisso um castigo? ...» - perguntas
«Um castigo.» - repito a encolher-me
« Como é que o sentes?» - perguntas de novo
«Aqui no peito apertado      Aqui em palavras de
 Marguerite Yourcenar que ouvi e nunca esqueci».

Imagem: Alois Zych, Study

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

[Quando tudo estremece ouço a música]


«Quando tudo estremece ouço a música
e cá dentro dessa agudíssima ordem
encontro a melancolia de um possível fim»

«Posso entrar assim frágil na tua harmonia
quase triste? Sei que também eu me desmorono
mas ouvindo-a juntos poderemos ser altos de novo»

«Não creio que possas restituir-me a paz merecida.
Esta música que ouço é só minha e tem portas
que só eu abro para cair no chão que se cria.
Quero estender a minha vida no tapete e sacudi-la
até me sentir vazia das coisas que fomos.»

«Faz-te cair ainda mais a melodia que reinventas?
Não compreendo... Deixa-me cair contigo
enquanto tudo parece estremecer à nossa volta.
Quero fazer-te pelo menos mais forte do que eu.»

«Não compreendes que cada vez que tentamos ser
as ondas deste mar retrocedem até ao horizonte
e por mais que os meus olhos esperem pelo seu regresso
deixam de as ver  mesmo perto da luz que rasga os dias?»

«Se eu deixar de te dar o sentido que ponho em cada
manhã. Será isso que queres definitivamente?
Um horizonte só teu?»

«Sim um horizonte em ruínas. É isso que preciso de ver
pr' acreditar que mesmo destruída encontro a desmesura
de mim que me alimentará até ao fim dos meus dias.»



Imagem: Edward Weston

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

[Por vezes converso contigo na minha cabeça]


Por vezes converso contigo na minha cabeça
e lá dentro ajeito ansiosa o cabelo que sinto
puxo a cadeira pr'à frente    mesmo sem corpo
e chamo    para dizer    as primeiras palavras
«Entra. Senta-te. Aqui dentro estamos mais confortáveis
e para além disso ninguém nos pode ouvir.»
«Senta-te no canto que preferires. Podes dizer tudo sem medo.»
E logo a tua voz quebra um silêncio acautelado quando me dizes
«Sim. O que arde cura. As minhas palavras junto de ti ardem
e nunca consigo dizer nada sem esse brilho doloroso me anular»
Recomeço « Não leves a ferida à letra.Tudo o que não digo é teu.
É para um bem adiado que toma forma em lugares incríveis
poças de chuva    nuvens improváveis    sombras de portões antigos
ramagens agitadas   juncos na água emergentes   cortinas que voam»
« Esse real sou eu     se bem te entendo.»
« Esse real entra nos meus olhos como se tu apertasses o que sinto
inteiro contra o teu corpo»
« Afinal nunca serei real. Ser real é ser mais do que uma visão»
« Há fantasias que podem justificar uma vida»
« Para mim és uma não-verdade»
«Queres dizer que queres sair daqui da minha cabeça para outro lugar?
Um lugar autêntico onde se sinta a brisa roçar o rosto para um arrepio
sério. Um lugar menos fundo do que este. À superfície para os outros verem.
Só assim crês que há verdade neste amor. Através do espanto dos outros?»
«Quero viver contigo fora da tua cabeça»
«Mas se já vives dentro de mim»
«Mas não te vejo    não te toco    não te falo»
«Se isso te mata podes chorar durante o sono para eu sair dos teus olhos.»
«Não quero que saias. Quero que reentres com mais força nas minhas mãos.»
«O meu lugar perfeito é sempre interior»
«Desse modo não estou contigo. Amar é estar com»
« Estou nas palavras e nos silêncios. Estou sempre. Nunca quis ter outro corpo»
«Vou sair lá para fora. Assim não me bastas. Não quero um deus.»
«Eu também estou aí fora como uma coisa que se pode agarrar porém
tenciono recolher-me transitória como se fosse única e exclusivamente palavra.»
«Para mim isto é um princípio. Vou.»
«Dou-te este fim para que partas comigo sem que o saibas.»


Imagem: Elena Sariñena