terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

[O meu sexo de ler desnuda-se volumoso]

«Não basta estar nu para poder amar»
Maria Gabriela Llansol
O meu sexo de ler desnuda-se volumoso
principalmente para te ler  
sobre o tal tapete de flores arabescas 
de ramagens  repleta de drama e poesia
Mas não basta estar nu para poder amar
Não basta o dedo atravessar a linguagem
que calas se eu não te acaricio
se eu não penetro esse lodo
Resvalar pelo teu curso nuamente é pouco
Não basta cingir-te com os braços só de pele
se não te achar o fundo do ritmo que respiras
Não basta estar nu para poder amar
 se o meu sexo de ler não se deixar penetrar
pelo teu rosto a oferecer a escrita em jorros.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

[Do que tenho verdadeiramente pena]

«os poetas todos morrem sempre mais na língua»
Fiama Hasse Pais Brandão

Do que tenho verdadeiramente pena
é dos poetas todos quando morrem
morrerem sempre mais na língua.
E quando passo nas linhas das estâncias
que fervilhavam  verão e inverno
nos meus seios  no meu ventre nus
não encontro um único sopro
um único ritmo parecido com o dos seus poemas
É como se se abrisse um grande buraco
em todos os livros de poesia quando
os poetas se preparam para ser pó
E o meu tronco também enrijece a partir
dessas publicações das quais sai um pouco
da terra negra que os sepultou para os meus olhos
E essa terra de restos humanos e animais
encobre recantos desmesuradamente belos
da língua pura e vegetal que sustenta o meu espanto
Perco sobretudo a minha língua e dói-me
quando os poetas morrem assim profundamente.

sábado, 25 de janeiro de 2014

[Estas palavras querem falar com outras palavras]

Estas palavras querem falar com outras palavras
nem que as outras palavras não se abram em flor.
Estas palavras distinguem-me dos animais.
Mas estas palavras estão desesperadas por entrar
no rasto do teu pólen   por selvagens sugarem 
da tua boca as tuas palavras estagnadas.
Envolvo-as em água e    limpas    estas palavras dizem 

que é bom tê-las na boca só para ti. Pedem em silêncio
que as aceites  calado sobre o teu corpo armadura.
Estas palavras são abelhas e outras ameaças.
Mas mesmo assim quando puderes
com essas outras palavras que guardas na garganta
como ossos atravessados    responde-lhes
com a tua língua de terra e rio    acalma-as.
Podes também soterrar as minhas palavras se preferires.
Concede a força das pedras pesadas que rolam pelo monte
às tuas palavras engasgadas. Instala-lhes revolta.
Se as engolires  tornam-se irremediavelmente daninhas
maculam o teu caule duro de homem-flor.
Di-las como se ainda não estivessem amargas
como se ainda me pudesses querer toda ou mesmo nada.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

[Tantos títulos vizinhos em diálogo]

Tantos títulos vizinhos em diálogo
a lutarem na estante como se me assediassem
sem mais nem quê... Ou serei eu as vozes?
Ouço: « -Estás ao meu lado?» -
diz a Tabacaria a Sinais de Fogo -
E eu peço-lhes permissão para imaginar
um diálogo improvável. Diz o primeiro, engenheiro:
«-Nunca pensei poder incendiar-me assim 
só por te ter tão rente à capa...vem, grande Sena,
consumir-me todo» - ao que responde o professor
poeta: «- Nestes sinais entrego-te a minha vida. 
Também eu deito tudo para o chão
 como tu tens deitado a vida...»

E todos os títulos me parecem sábios, velhos
e boa companhia   mesmo cobertos de pó
Eu mesma o constato antes de ir para a cama
pois   como sempre    espreito-os nas prateleiras
do meu escritório a fim de me certificar
de que ainda há muitos por ler
de que ainda há muitos inexistentes no meu cérebro
e pacientes aguardam a minha escolha
a minha miopia crónica   os meus olhos
cada vez mais baços para as letras -
tenebrosa infelicidade para a leitora
tão acesa e faminta que fui fazendo de mim -

E independentemente de ser dramático
eufórico poético  risível  ou   sério
eu amo sobretudo qualquer título pousado
verticalmente na estante   esguio   discreto
que apenas se entrevê à luz do candeeiro fraco
E sei que só por pertencer a uma lombada
e essa lombada a um livro e esse livro a um autor
o ouço como se fosse o amigo mais fraterno
e pego-lhe nas mãos como se fosse eu a consolá-lo
Só compro títulos de amigos espirituais ou familiares
Pago-lhes para serem a outra voz com que falo
e pagaria o dobro nessa transacção   sem hesitar

Preciso que essas vozes fraternas me atormentem
Salsugem    O Medo    oh Al Berto meu querido insano
que as vozes me dobrem a alma a meio   me sacudam
oh Herberto d' A Cabeça nas mãos  Herberto das Servidões
Tu    mais que ninguém    serves-me a poesia a escaldar
ferves nas minhas veias com A faca não corta o fogo

Mas também quero vozes que me abracem com
O nome das coisas És tão funda  Sophia  como mar
E o meu anseio de que me preguem rasteiras
de que me façam cair e sangrar dos joelhos na leitura
de Uma cidade com muralha oh denso Daniel Faria
e  a seguir o desejo de que os Poemas de Deus e do Diabo 
me cuspam em cima   desolados    ou então   me beijem
para que de estômago contraído e   sem outro fim excessivo
adormeça a repetir Onde vais, drama-poesia?
adormeça a repetir os títulos das estantes brancas como LLansol.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

[O que é que eu digo? Estás aí?]


                                        «Ah, os dias felizes»
                                Samuel Beckett

O que é que eu digo? Estás aí?
Ouve agora pois depois desse grunhido
direi o que sei que me chega do poema:
tenho uma luz bipolar Ouves desse lado?
Ora atraio ao meu tecido como a aranha 
ora expulso qualquer língua que me quer
e até parece que tudo o que faço
com qualquer movimento largo 
com qualquer avessa recusa
não consegue derrubar nem excitar
a mais pequena formiga da terra que piso
Tudo se retrai   Tudo fica dentro de mim
até mesmo a própria formiga Todas as teias
Será a minha mão direita assim tão silenciosa
tão invisível que me torno inexistente 
que volvo até a mim tão desapetecida 
Que fará o outro mover-se ao meu encontro...
Mesmo assim é feliz este dia  Ah sim feliz
Permanecerei aqui  Deixarei o meu corpo
aqui repousar também Ninguém se importará 
Recorrerei apenas à memória dos meus outros
tantos dias felizes enquanto espero que tu chegues
pela noite reclames o jantar e que me sente à mesa
E enquanto isso vou recitando Ramos Rosa
Lembras-te daqueles versos?Não sei quê... 
Estamos de súbito libertos no diálogo 
que como um fogo alteia à nossa volta
 e vendo somos a chama e o seu sono   
e não sei que mais... Lembras-te ouviste?
Consegues delirar? Se respondesses seríamos
finalmente livres e vigiaríamos juntos o rio que passa
e a terra que se abre a cada dia a olhos vistos
para nos engolir sem recuarmos ao passado
Mas não faz mal  Continua no teu trabalho
Ganhar dinheiro muito dinheiro é um acto inadiável
Deixa-te estar nessa companhia a tilintar
que eu vou recordar todos os nossos dias felizes
não acredito que seremos os últimos seres humanos
perdidos por aqui ...

Imagem: Elena Sariñena


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

[Já todos nós matamos uma ou outra vez]

                                                                             À Teresa Pires
Já todos nós matamos uma ou outra vez
Já ficámos de mãos sujas    embaraçadas
sem sabermos como torná-las brancas de novo
Já todos ouvimos o disparo da nossa vítima
dessa que tanto amamos fechando as pálpebras
em pleno escuro entre nós e o precipício latente
e mesmo assim a insensatez de a desfazermos
uma e outra vez  estendendo o erro no tempo
sem pensarmos se acolheria mal essa morte
essa brutidão da morte que lhe cominámos
Sem querermos saber se nesse abrupto declive
que lhe preparámos sobreviveria da tristeza
apenas com palavras claras com interrogações
contra o nosso golpe indesculpável
E uma e outra vez ainda ouvimos os ecos
de uma aflição sem fim como se fossem doutros
- Por que me fazes isto se tanto te amo   amor?
- Isto é apenas o meu egoísmo quando me 
  faço acompanhar de mim.
- E são tantos os momentos em que não me vês em ti?
- Pertences-me sempre mesmo quando me parece que 
  escapas à paisagem  ao sorriso ao desejo
  do bicho que sou. Mesmo quando não estás
  são as tuas primeiras palavras 
  são as tuas últimas palavras
  aliás são as tuas palavras de permeio
  que leio nos rostos dos outros com quem estou.
  São elas que me fazem esquecer-te ali ou noutro tempo
  instaurando uma alegria suprema que me arrasa
  a memória como se um vento forte me levasse a cabeça.
- Não me faças ser sem ti. Nunca o quis ver.
E nessa derrocada quase lenta   quase imóvel
                                                          - Não vás sem mim
nessa ameaça da voz do ser que amamos
percebemos que o matamos um pouco
percebemos que nos matamos também um pouco
se não sonhamos juntos num só fogo
 mesmo quando em volta só vemos sinais de neve.


Imagem: Elena Sariñena


terça-feira, 19 de novembro de 2013

[O julgamento dos amantes passou-se na montanha]



O julgamento dos amantes passou-se na montanha
num esplendor de odor a terra húmida que inundou
os troncos de árvores como se os transbordasse
em fungos e algas: líquenes que vêem
Ouvi todas as testemunhas dizerem que era preciso
espalhar as sementes da correcção 
as entranhas do amor eterno no húmus aberto

E eu não creio que tenha assistido a nada de tão soberbo
como ao arremesso deste crime para os olhos de todos
mesmo dos animais que dobrados pareciam folhas com sede
Foi nesse verde que quase ceguei com as suas sombras altas 
como só a floresta consegue erguer    que vi reflectidos
os rostos dos amantes    belos    à espera
tensos como aloés que se sabem demasiado expostos

E o juíz decidido a condená-los pelos beijos à bruma
de alguns anos       pelos corpos 
que inconsequentes se desfizeram em lama
só para experimentarem uma paixão atordoada 
como se os outros não existissem para a reprovar

Em volta há gritos há pedras lançadas pelo ar
Há êxtases que incitam respostas que os amantes
não dão por vergonha
Há crianças com os mesmos rostos que os amantes
com fisgas presas nas mãos pequenas
prontas para lançarem pedradas
Há quem cuspa nos cabelos dos amantes 

e os diálogos não deixam nenhum insulto de parte
as pessoas sabem o que dizem e são conscienciosas
mesmo na montanha tão longe da cidade
eu própria os acusei de punhos fechados 
senti nojo da paixão que escondiam ainda
só as aves convocaram os seus cantares 
para afastarem o mal para outros vales
e os amantes como ali se arrependessem
estendiam o choro como taças de água 
para todas as agitações  todas as bocas
celebrando assim a sua maior desgraça.