quinta-feira, 28 de novembro de 2013

[O que é que eu digo? Estás aí?]


                                        «Ah, os dias felizes»
                                Samuel Beckett

O que é que eu digo? Estás aí?
Ouve agora pois depois desse grunhido
direi o que sei que me chega do poema:
tenho uma luz bipolar Ouves desse lado?
Ora atraio ao meu tecido como a aranha 
ora expulso qualquer língua que me quer
e até parece que tudo o que faço
com qualquer movimento largo 
com qualquer avessa recusa
não consegue derrubar nem excitar
a mais pequena formiga da terra que piso
Tudo se retrai   Tudo fica dentro de mim
até mesmo a própria formiga Todas as teias
Será a minha mão direita assim tão silenciosa
tão invisível que me torno inexistente 
que volvo até a mim tão desapetecida 
Que fará o outro mover-se ao meu encontro...
Mesmo assim é feliz este dia  Ah sim feliz
Permanecerei aqui  Deixarei o meu corpo
aqui repousar também Ninguém se importará 
Recorrerei apenas à memória dos meus outros
tantos dias felizes enquanto espero que tu chegues
pela noite reclames o jantar e que me sente à mesa
E enquanto isso vou recitando Ramos Rosa
Lembras-te daqueles versos?Não sei quê... 
Estamos de súbito libertos no diálogo 
que como um fogo alteia à nossa volta
 e vendo somos a chama e o seu sono   
e não sei que mais... Lembras-te ouviste?
Consegues delirar? Se respondesses seríamos
finalmente livres e vigiaríamos juntos o rio que passa
e a terra que se abre a cada dia a olhos vistos
para nos engolir sem recuarmos ao passado
Mas não faz mal  Continua no teu trabalho
Ganhar dinheiro muito dinheiro é um acto inadiável
Deixa-te estar nessa companhia a tilintar
que eu vou recordar todos os nossos dias felizes
não acredito que seremos os últimos seres humanos
perdidos por aqui ...

Imagem: Elena Sariñena


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

[Já todos nós matamos uma ou outra vez]

                                                                             À Teresa Pires
Já todos nós matamos uma ou outra vez
Já ficámos de mãos sujas    embaraçadas
sem sabermos como torná-las brancas de novo
Já todos ouvimos o disparo da nossa vítima
dessa que tanto amamos fechando as pálpebras
em pleno escuro entre nós e o precipício latente
e mesmo assim a insensatez de a desfazermos
uma e outra vez  estendendo o erro no tempo
sem pensarmos se acolheria mal essa morte
essa brutidão da morte que lhe cominámos
Sem querermos saber se nesse abrupto declive
que lhe preparámos sobreviveria da tristeza
apenas com palavras claras com interrogações
contra o nosso golpe indesculpável
E uma e outra vez ainda ouvimos os ecos
de uma aflição sem fim como se fossem doutros
- Por que me fazes isto se tanto te amo   amor?
- Isto é apenas o meu egoísmo quando me 
  faço acompanhar de mim.
- E são tantos os momentos em que não me vês em ti?
- Pertences-me sempre mesmo quando me parece que 
  escapas à paisagem  ao sorriso ao desejo
  do bicho que sou. Mesmo quando não estás
  são as tuas primeiras palavras 
  são as tuas últimas palavras
  aliás são as tuas palavras de permeio
  que leio nos rostos dos outros com quem estou.
  São elas que me fazem esquecer-te ali ou noutro tempo
  instaurando uma alegria suprema que me arrasa
  a memória como se um vento forte me levasse a cabeça.
- Não me faças ser sem ti. Nunca o quis ver.
E nessa derrocada quase lenta   quase imóvel
                                                          - Não vás sem mim
nessa ameaça da voz do ser que amamos
percebemos que o matamos um pouco
percebemos que nos matamos também um pouco
se não sonhamos juntos num só fogo
 mesmo quando em volta só vemos sinais de neve.


Imagem: Elena Sariñena


terça-feira, 19 de novembro de 2013

[O julgamento dos amantes passou-se na montanha]



O julgamento dos amantes passou-se na montanha
num esplendor de odor a terra húmida que inundou
os troncos de árvores como se os transbordasse
em fungos e algas: líquenes que vêem
Ouvi todas as testemunhas dizerem que era preciso
espalhar as sementes da correcção 
as entranhas do amor eterno no húmus aberto

E eu não creio que tenha assistido a nada de tão soberbo
como ao arremesso deste crime para os olhos de todos
mesmo dos animais que dobrados pareciam folhas com sede
Foi nesse verde que quase ceguei com as suas sombras altas 
como só a floresta consegue erguer    que vi reflectidos
os rostos dos amantes    belos    à espera
tensos como aloés que se sabem demasiado expostos

E o juíz decidido a condená-los pelos beijos à bruma
de alguns anos       pelos corpos 
que inconsequentes se desfizeram em lama
só para experimentarem uma paixão atordoada 
como se os outros não existissem para a reprovar

Em volta há gritos há pedras lançadas pelo ar
Há êxtases que incitam respostas que os amantes
não dão por vergonha
Há crianças com os mesmos rostos que os amantes
com fisgas presas nas mãos pequenas
prontas para lançarem pedradas
Há quem cuspa nos cabelos dos amantes 

e os diálogos não deixam nenhum insulto de parte
as pessoas sabem o que dizem e são conscienciosas
mesmo na montanha tão longe da cidade
eu própria os acusei de punhos fechados 
senti nojo da paixão que escondiam ainda
só as aves convocaram os seus cantares 
para afastarem o mal para outros vales
e os amantes como ali se arrependessem
estendiam o choro como taças de água 
para todas as agitações  todas as bocas
celebrando assim a sua maior desgraça.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

[Quando chegas e dizes que és amor pela manhã]


Quando chegas e dizes que és amor pela manhã    
e mo repetes ao ouvido convicto de que só eu o sei
observo-te entre todos os ângulos possíveis
na esperança de te ver erguer só o que sentes
só o que dizes seguro e alto nas  tuas  mãos abertas
Quando recuas farto de fogo para os meus olhos
Como se me ateasses com um só lume ou fizesses
sangue das flores que tens escondidas nos braços
e me dizes ao ouvido que és amor
eu acredito e toco-lhe sentindo a tua língua aguada
porque sei que és maior a cada segundo que passa
que me vais regressando cada vez mais
que me confirmas esse grande amor
E já de tarde sento-me e aguardo a tua voz perfeita
espero que a tua essência jorre e me penetre inteira
e enfim  soe essa música que me pões forte no peito
como se os teus passos em frente até aos meus
ou os teus braços longos   que me lanças ao pescoço
fossem um último risco    antes da minha morte
E já de noite quando repentinos outros chegam a casa
tu recolhes os sentidos como se não fosses o mesmo
amor imenso que passou por mim incendiando tudo
encolhes a voz que costuma dizer o que gosto de ser
e então és uma noite cerrada que se deita no meu ventre
uma escuridão pesada como uma qualquer coisa viva
tal qual um filho pequeno que não sei como amar mais.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

[Por quem te tomas quando me afrontas?]


Ninguém é mau. O que somos é ainda novos demais na terra.
Agustina Bessa-Luís

«-Por quem te tomas quando me afrontas?
Excessivamente convicto parece quereres levar-me da terra.
Não te admito que desfaças a minha ingenuidade com duas
ameaças de mar picado. Retira-te das minhas ilusões fortes
como se fosses daquele país do sul propiciamente indeferido»

«- Sou novo demais para te desobedecer porém o que tocas
com as tuas mãos desencontra-se com o tanto que me  dizes.
Não posso mesmo que queira seguir esse rumo descabido.
Ficarei porque este amor me chora pelo corpo afora e morro»

«- Cala-o se não és mau. Lembra-te que alguém te ama tanto
ou mais do que eu. Por que queres desembarcar aqui nesta
praia tão salgada em que nenhum dos teus aporta? Neste fim estreito?
Nem há assento para dois nestes caminhos de areia. Só para mim
só para as outras que também sou quando adormeço em sonho longo.»

«- Recusas o que também é meu. Quero esquecer a quem pertenço.
Prefiro pensar que erro porque não consigo entender o que a idade
me esconde atrás de todos os horizontes todas as paisagens belas.»

«- Vamos morrer primeiro e só depois partimos juntos já um pouco
mais sábios  já um pouco menos aterrados com as dores que esta ilha
nos faz sentir quando respiramos fundo. Vamos morrer primeiro e
com outros rostos renasceremos cheios da pureza dos areais molhados
tão remexidos por aquele grandioso mar que faz esquecer todos os prantos»


Imagem: Ben Hoper

[É isso mesmo senhor leitor]


«-É isso mesmo    senhor leitor
o prazer de ler o que nunca foi escrito
não é um prazer qualquer  Não não é
Concordo consigo ... completamente ...
Mas agora leia-me bem  Renda-se ao texto
e pelo menos uma vez tente deixar-se subjugar
Cative-se... isso...olhe mais para baixo por favor
Não se precipite  Não se entregue de uma vez só
Viu o nome da autora? Claro...já percebeu quem ela é
Pode então agora sobrevoar o texto como se andasse
seriamente em busca de si próprio Como? Onde estão
as entradas irreversíveis para estes versos? Como assim?
Obviamente que deve seguir-me no sentido esquerda-direita
E não...não tente entrar noutro poema sem primeiramente
ler este com uma voracidade ininterrupta Eu estou aqui mais do que
noutro lugar Sente-se ansioso excitado desorientado?  Não se precipite
por amor de deus  pelo amor que lhe tem ...a ela... ou pelo menos julga ter
Veja o espaço livre da margem direita  Sim...ora bem...esse mesmo...pare
Pouse mesmo aí o olhar Pode avistar-me e acalmar essa ansiedade indomada
Não queira encontrar nessa urdidura poética os olhos  a boca dela ...Não nos confunda
Pode realmente encontrá-los mas fora do texto  Peço-lhe: não me conceda esta autoria
O quê? Só consegue relaxar se der com as marcas do meu corpo?! Olhe que sou apenas
o sujeito poético desejado por ela ...uma sujeita sim...mas não deixo de ser abstracta
O meu corpo é muitas palavras juntas  cheio de sílabas excitadas por conhecê-lo
Sim...admito...assim...aqui nesta linha recta horizontal negra e intermitente Parece-me
que já estou a vê-lo a chegar os lábios à minha fronte Sim    f-r-o-n-t-e   minha fronte
Pode beijar-me aqui mesmo neste advérbio pequeno  a-q-u-i  sou eu  beije-me leia-me
Nunca pensou poder fazer isto do poema? Quantas vezes me beijou desde que lho
permiti senhor leitor? Não o faça...pare por favor Tenha a humildade de o fazer de novo
apenas amanhã quando me procurar outra vez para me reler e tiver a certeza de que
não sou L.V.  Não não sou Já lho tinha dito no verso nove tratando-a na terceira pessoa
E eu não quero compromisso sério dentro do texto Sim levianamente assumo que
quero ser lida por outros leitores percebe? Superficiais  Atentos  Profundos  Precipitados
Quero que percebam à sua maneira quem sou afinal  como domino a minha artificialidade
Espere...Estou sim? Ainda me vê na folha que tem consigo aí ao telefone? Ainda me lê?
Eu sinto-o sim...continuo morta de prazer mas por agora dobre-me...meta-me no bolso
Não desespere...guarde-me bem...saia pelo canto direito em branco...volte amanhã ...»

Imagem: Antonio Lopez, El Telefono

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

[Da tua voz fiz uma vertigem]

«- Da tua voz fiz uma vertigem
  como nunca imaginei haver.
  Dobei-a como a uma lã
  que parecia mesmo não querer
  desprender-se do novelo de que é enigma.
  Assustou-me uma garganta fechada
  sem abertura para o escuro que há em ti.
  Doeu-me puxar-te pelo fio do coração
  que reconheço de qualquer longe. Foi longo
  o caminho que estendi até aos teus rumores.
  Pé ante pé equilibrei-me nas tuas entoações.
  E só no fim do meu esforço   lenta   me despi
  e a tua voz veio à tona  súbita  num redemoinho
  mas com um sangue tão retraído
  que me transtornei para essa noite para a noite
  seguinte para todas as noites. Perdi-me então
  num silêncio de mera constatação da tua perda
  que não passou de outra vertigem que refiz de ti
  para lá da música que noutro tempo ousaste ser
  no meu corpo tão novo tão tenso contra o teu.»
«- ___________________________________.»
«- Hoje és o silêncio triste que há no fundo
   das coisas  às vezes no avesso interdito dos lugares
   ou nas sombras que passam e se calam sem razões.»

Imagem: Rocco Carnevale, L' Escape