sexta-feira, 1 de novembro de 2013

[Quando chegas e dizes que és amor pela manhã]


Quando chegas e dizes que és amor pela manhã    
e mo repetes ao ouvido convicto de que só eu o sei
observo-te entre todos os ângulos possíveis
na esperança de te ver erguer só o que sentes
só o que dizes seguro e alto nas  tuas  mãos abertas
Quando recuas farto de fogo para os meus olhos
Como se me ateasses com um só lume ou fizesses
sangue das flores que tens escondidas nos braços
e me dizes ao ouvido que és amor
eu acredito e toco-lhe sentindo a tua língua aguada
porque sei que és maior a cada segundo que passa
que me vais regressando cada vez mais
que me confirmas esse grande amor
E já de tarde sento-me e aguardo a tua voz perfeita
espero que a tua essência jorre e me penetre inteira
e enfim  soe essa música que me pões forte no peito
como se os teus passos em frente até aos meus
ou os teus braços longos   que me lanças ao pescoço
fossem um último risco    antes da minha morte
E já de noite quando repentinos outros chegam a casa
tu recolhes os sentidos como se não fosses o mesmo
amor imenso que passou por mim incendiando tudo
encolhes a voz que costuma dizer o que gosto de ser
e então és uma noite cerrada que se deita no meu ventre
uma escuridão pesada como uma qualquer coisa viva
tal qual um filho pequeno que não sei como amar mais.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

[Por quem te tomas quando me afrontas?]


Ninguém é mau. O que somos é ainda novos demais na terra.
Agustina Bessa-Luís

«-Por quem te tomas quando me afrontas?
Excessivamente convicto parece quereres levar-me da terra.
Não te admito que desfaças a minha ingenuidade com duas
ameaças de mar picado. Retira-te das minhas ilusões fortes
como se fosses daquele país do sul propiciamente indeferido»

«- Sou novo demais para te desobedecer porém o que tocas
com as tuas mãos desencontra-se com o tanto que me  dizes.
Não posso mesmo que queira seguir esse rumo descabido.
Ficarei porque este amor me chora pelo corpo afora e morro»

«- Cala-o se não és mau. Lembra-te que alguém te ama tanto
ou mais do que eu. Por que queres desembarcar aqui nesta
praia tão salgada em que nenhum dos teus aporta? Neste fim estreito?
Nem há assento para dois nestes caminhos de areia. Só para mim
só para as outras que também sou quando adormeço em sonho longo.»

«- Recusas o que também é meu. Quero esquecer a quem pertenço.
Prefiro pensar que erro porque não consigo entender o que a idade
me esconde atrás de todos os horizontes todas as paisagens belas.»

«- Vamos morrer primeiro e só depois partimos juntos já um pouco
mais sábios  já um pouco menos aterrados com as dores que esta ilha
nos faz sentir quando respiramos fundo. Vamos morrer primeiro e
com outros rostos renasceremos cheios da pureza dos areais molhados
tão remexidos por aquele grandioso mar que faz esquecer todos os prantos»


Imagem: Ben Hoper

[É isso mesmo senhor leitor]


«-É isso mesmo    senhor leitor
o prazer de ler o que nunca foi escrito
não é um prazer qualquer  Não não é
Concordo consigo ... completamente ...
Mas agora leia-me bem  Renda-se ao texto
e pelo menos uma vez tente deixar-se subjugar
Cative-se... isso...olhe mais para baixo por favor
Não se precipite  Não se entregue de uma vez só
Viu o nome da autora? Claro...já percebeu quem ela é
Pode então agora sobrevoar o texto como se andasse
seriamente em busca de si próprio Como? Onde estão
as entradas irreversíveis para estes versos? Como assim?
Obviamente que deve seguir-me no sentido esquerda-direita
E não...não tente entrar noutro poema sem primeiramente
ler este com uma voracidade ininterrupta Eu estou aqui mais do que
noutro lugar Sente-se ansioso excitado desorientado?  Não se precipite
por amor de deus  pelo amor que lhe tem ...a ela... ou pelo menos julga ter
Veja o espaço livre da margem direita  Sim...ora bem...esse mesmo...pare
Pouse mesmo aí o olhar Pode avistar-me e acalmar essa ansiedade indomada
Não queira encontrar nessa urdidura poética os olhos  a boca dela ...Não nos confunda
Pode realmente encontrá-los mas fora do texto  Peço-lhe: não me conceda esta autoria
O quê? Só consegue relaxar se der com as marcas do meu corpo?! Olhe que sou apenas
o sujeito poético desejado por ela ...uma sujeita sim...mas não deixo de ser abstracta
O meu corpo é muitas palavras juntas  cheio de sílabas excitadas por conhecê-lo
Sim...admito...assim...aqui nesta linha recta horizontal negra e intermitente Parece-me
que já estou a vê-lo a chegar os lábios à minha fronte Sim    f-r-o-n-t-e   minha fronte
Pode beijar-me aqui mesmo neste advérbio pequeno  a-q-u-i  sou eu  beije-me leia-me
Nunca pensou poder fazer isto do poema? Quantas vezes me beijou desde que lho
permiti senhor leitor? Não o faça...pare por favor Tenha a humildade de o fazer de novo
apenas amanhã quando me procurar outra vez para me reler e tiver a certeza de que
não sou L.V.  Não não sou Já lho tinha dito no verso nove tratando-a na terceira pessoa
E eu não quero compromisso sério dentro do texto Sim levianamente assumo que
quero ser lida por outros leitores percebe? Superficiais  Atentos  Profundos  Precipitados
Quero que percebam à sua maneira quem sou afinal  como domino a minha artificialidade
Espere...Estou sim? Ainda me vê na folha que tem consigo aí ao telefone? Ainda me lê?
Eu sinto-o sim...continuo morta de prazer mas por agora dobre-me...meta-me no bolso
Não desespere...guarde-me bem...saia pelo canto direito em branco...volte amanhã ...»

Imagem: Antonio Lopez, El Telefono

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

[Da tua voz fiz uma vertigem]

«- Da tua voz fiz uma vertigem
  como nunca imaginei haver.
  Dobei-a como a uma lã
  que parecia mesmo não querer
  desprender-se do novelo de que é enigma.
  Assustou-me uma garganta fechada
  sem abertura para o escuro que há em ti.
  Doeu-me puxar-te pelo fio do coração
  que reconheço de qualquer longe. Foi longo
  o caminho que estendi até aos teus rumores.
  Pé ante pé equilibrei-me nas tuas entoações.
  E só no fim do meu esforço   lenta   me despi
  e a tua voz veio à tona  súbita  num redemoinho
  mas com um sangue tão retraído
  que me transtornei para essa noite para a noite
  seguinte para todas as noites. Perdi-me então
  num silêncio de mera constatação da tua perda
  que não passou de outra vertigem que refiz de ti
  para lá da música que noutro tempo ousaste ser
  no meu corpo tão novo tão tenso contra o teu.»
«- ___________________________________.»
«- Hoje és o silêncio triste que há no fundo
   das coisas  às vezes no avesso interdito dos lugares
   ou nas sombras que passam e se calam sem razões.»

Imagem: Rocco Carnevale, L' Escape

sábado, 28 de setembro de 2013

[O poema dos pássaros que ontem à noite escrevi]


«- O poema dos pássaros que ontem à noite escrevi
   não é poema não é nada. É uma hipocrisia pegada.
   Um absurdo à minha frente. O que me dizes a isto?»
(Sentada na cadeira para pensar melhor com o corpo todo)
«- Não dei conta de nada. Não dei conta de nada.»
«- De que vale ser a poeta deste poema nesta vida
  se fora do texto ter pássaros é insuportável para mim?
«- Acalmas a tua repulsa. Dás-lhe a gaiola da estrofe
   e a beleza da palavra. É da palavra que gostas.»
«- Sinto aversão ao meu poema como a personagem
   d' A Pomba  à pomba que não se vai dali.»
«- É da palavra que gostas. Só os pássaros esvoaçam
   com delicadeza como os sons vocálicos que amas.»
«- Que grande hipocrisia é afinal a poesia nas minhas
   mãos... Queria amar de verdade o que digo
   para sempre.»
«- Mas trazes pássaros na memória muito comodamente.
  Eles são imagens fortes mesmo que te arrepiem de medo
  ao passar rente à cabeça. Dentro de ti são felizes.»
«- Não dês desculpas. Tu e eu    sabes bem
   somos eu e eu. Um diálogo de mim para mim
   ou estarei louca?»
«- Outra inverdade. Escrever é uma loucura absoluta.
   Podes sempre mudar a pessoa gramatical. Retirar
   o travessão e fazer um monólogo  respeitado.»
«- Convincente queres tu dizer? Como fiz com os pássaros.»
«- Convencer sem crer é coisa difícil de fazer com palavras.
   Esse é o teu amor maior. Pior é fazê-lo com o olhar.»

(Agora de mim para mim    recorrendo à didascália
utensílio dramático  para não levantar dúvida nenhuma)
«- Só sei que quanto mais escrevo menos digo as verdades.
   As minhas verdades. Importa-me é agarrar as palavras
   como pesos e fazer com elas uma espécie de halterofilismo
   que faça de mim mais forte na expressão. Mais forte a cada dia.
   Elevo-as e baixo-as com esforço. Suo. E quando sinto o corpo
   enrijecido para levar com a poesia toda na cara como um murro
   ponho o ponto final e dou por findo o meu poema. Apago a luz
   até sentir que sou real porque não vejo no escuro e que
   aquilo que faço é físiológico e tremendamente confuso.»

Imagem: E. O. Hoppe

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

[Foi quando arrisquei entrar na casa do poeta]

                                                                   À Paula Vieira,
                                                                                                                         lembrando-lhe um conto de Muriel Spark

Foi quando arrisquei entrar na casa do poeta
que tinha pássaros a guardar-lhe a porta
entreaberta
para qualquer curioso poder entrar como eu
espantado de tantas plumagens sustidas no ar
como se fossem uma festa
um gozo adiantado
que movimentei os lábios para que os meus sons
parecessem provir dos trajectos curtos vorazes
daquelas avezinhas maravilhosamente brancas
Acariciei-as hesitante
Quis ser uma amiga
e empurrei a porta crente que veria etereamente
quando o que vi foi à pouca luz
um homem nu
coberto das palavras que escrevera toda a vida
desde menino na sua vila     aos pés da sua mãe
à quase-morte na cidade onde escolhera viver
Apercebi-o deitado num cadeirão baloiçante
como se aguardasse uma música
ou a chegada ritmada de alguém
que lhe falasse com outras  palavras
e aproximando-me disse-lhe estranhamente:
«- Folhas de outono com  palavras quentes?»
«- Quem és tu?»
«- Uma amiga do que diz.»
«- Isto que vês é a minha carne. O que disse
    hoje é isto velho. Pronto a ser recolhido pela
     terra.Se és sol  senta-te. Podes fazer muito
    da minha morte.»
«- Rezar por si    dizendo os seus poemas?»
«- Não rezes. Diz apenas as palavras que aqui vês
   sobre um corpo que já não as consegue revelar.»
«- Esses poemas que o cobrem parecem flores.»
«- Estão quase secos, querida. Recolhe-os.
   Dá-lhes de beber. Leva-os contigo para as ruas.»
«- Assim será. Nunca os deixarei ter sede das bocas.»
«- Que sejam um amparo para os outros. Fá-los
   voar como os meus pássaros. Liberta-os. Leva-os
   nas mãos para que vivam do desejo dos outros.»
«- Desejo dizê-los para voar dentro de mim. E nessa
   partida chamarei todos aqueles que disseram por si.
   o meu poeta.»

Imagem: Elena Sariñena, Forever Young

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

[Decidi fechar o corpo a quem passava]


Decidi fechar o corpo a quem passava
Não posso mais conter-me por entrar em mim
Segui para dentro como se me fosse embora
Gosto de me invadir   de fingir que não sou
o que sou presa à minha língua
Parti para outro lugar que ninguém sabe
onde ensaio um conflito entre o que sou
e o meu corpo cansado de te amar
Dobrei o pescoço para chegar aos seios
e foi fácil seguir de perto este guião que fiz
Experimentei uma voz suspensa  muito baixa
para me reconhecer aos poucos   e suspirei
apertei as pálpebras contra o desvaire
que tento avivar mesmo sem público
Gosto de mim desvairada
Gosto das minhas próprias cenas
Dispenso o público com os seus aplausos
ou a rudeza dos seus assobios
Até quando me enrolo no silêncio desta pele
como se fosse aqui uma mera intrusa
gosto de mim assim desvairada nesta solidão
Esta noite não quis que ninguém me chegasse
da rua ou de qualquer lugar fora do meu tacto
E que ninguém batesse neste corpo como à porta
Não lhe abriria nenhum conforto
Quero é falar como uma solitária que dá dó
Encontrar um ponto incógnito na minha cintura
a que chamarei de meu ignoto
e que ele me extenue de falsidades excitantes
que nunca sinto nos dias nem nas ruas onde vivo
Só falta agora um diálogo que lhe dará espessura:

« O amor é um castigo?» - dizes rouco
« É um castigo» - respondo sucinta
«Explica» - continuas lento e muito pouco
«O amor nunca me deixa estar só» - digo com o corpo
« E achas nisso um castigo? ...» - perguntas
«Um castigo.» - repito a encolher-me
« Como é que o sentes?» - perguntas de novo
«Aqui no peito apertado      Aqui em palavras de
 Marguerite Yourcenar que ouvi e nunca esqueci».

Imagem: Alois Zych, Study